Após quatro meses sem aprovação da Premier League, consórcio saudita desiste de comprar o Newcastle

| TRIVELA/BRUNO BONSANTI


O torcedor do Newcastle sabia que alguma coisa estava errada. Está acostumado com o sentimento. A venda do clube para um consórcio saudita, a tão esperada oportunidade de se livrar de Mike Ashley, havia sido anunciada em abril. Faltava apenas a aprovação da Premier League. Problemas surgiram, o tempo foi passando e, com o fim da temporada, o clube não sabia como planejar seu futuro. Enfim, a resposta chegou, e não foi da liga inglesa, nem a que 97% dos torcedores do Newcastle esperavam: o consórcio abortou o negócio.

A Premier League ainda não explicou claramente e em público os motivos que levaram à demora incomum para processar o teste que avalia os interessados em comprar um de seus clubes. Ao longo desse meses, houve pressão da beIn Sports, uma das mais importantes parceiras financeiras da liga inglesa, para que o negócio fosse recusado por causa de uma rede de pirataria que rouba o seu sinal para transmitir jogos dos quais ela não tem os direitos, com o envolvimento do governo, segundo relatório da Organização Mundial do Comércio.

Houve apelos de grupos de direitos humanos, como a Anistia Internacional, e da esposa de Jamal Khashoggi, jornalista assassinado na embaixada saudita de Istambul por agentes do governo, para que a liga não aceitasse em sua mesa a presença de um país autoritário com longa folha corrida de violações de direitos humanos.

Além do Fundo de Investimento Público da Arábia Saudita, comandado pelo príncipe Bin Salman, governante do país, o consórcio contava com os empresários britânicos Amanda Staveley e os irmãos David e Simon Reuben.

Em um comunicado, eles afirmaram que o processo “imprevisivelmente prolongado' levou o acordo entre os investidores e Mike Ashley a expirar e que o interesse não poderia ser mantido, “especialmente sem esclarecimento sobre as circunstâncias sob as quais a próxima temporada começará, com novas normas que surgirão para partidas, treinos e outras atividades', aludindo às medidas de segurança que ainda estarão em prática por causa da pandemia de coronavírus.

“Tomamos a decisão de retirar nosso interesse pela compra do Newcastle. Lamentamos fazer isso porque estávamos empolgados e totalmente comprometidos em investir na grande cidade de Newcastle e acreditamos que poderíamos ter feito com que o clube retornasse a uma posição que sua história, tradição e torcida merecem', afirmou o grupo.

Em entrevista ao Times of London, Staveley culpou a Premier League e citou a resistência dos outros clubes da liga. “Eles tiveram a chance, eles disseram que não respondemos todas suas perguntas, mas nós o fizemos. Mas os outros clubes da Premier League não queriam que isso acontecesse. Estamos de coração partido pelos torcedores do Newcastle porque o investimento que seria feito no clube, especialmente com tudo isso acontecendo com o Brexit e a Covid, teria sido muito importante. Isso é catastrófico para eles', afirmou.

“A questão da pirataria não foi um problema, mas tentamos resolvê-la mesmo assim', acrescentou. Após o relatório da OMC, o governo saudita prometeu medidas contra a rede pirata, mas não parece ter satisfeito a Premier League.

A Arábia Saudita bloqueou ações legais da Premier League para tentar derrubar a rede pirata e houve “irritação' quando o governo não reconheceu a decisão da OMC de que o serviço era “operado por indivíduos ou entidades sujeitas à jurisdição criminal da Arábia Saudita'.

Segundo a apuração do Guardian, essa foi uma questão essencial porque o teste para donos e diretores recusa interessados se um crime cometido em outros país, como a pirataria, também é considerado crime no Reino Unido, e que o consórcio recebeu a oportunidade de reestruturar a proposta para evitar o conflito, mas, como Bin Salman também é presidente do fundo que colocaria 80% do investimento, foi naturalmente impossível.

O consórcio, ainda de acordo com o Guardian, reclamou que a Premier League havia sinalizado que aprovaria o negócio no começo do processo, mas ficou “mudando os critérios', o que reforça a tese de que o principal fator foi a pressão da beIn Sports, que gasta uma nota com direitos de transmissão internacionais e se tornou personagem da guerra diplomática entre o Catar e a Arábia Saudita, que lidera um bloqueio econômico da região à sede da Copa do Mundo de 2022.

A BBC publicou na última segunda-feira que a Premier League estava buscando mais certeza em relação a quem teria a palavra final nas decisões e estava “com dificuldades' para estabelecer com precisão as ligações entre o consórcio e o governo saudita. Dica da redação: o maior investidor do consórcio toma todas as decisões do governo saudita.

No fim, o consórcio teria desistido antes que fosse recusado, segundo o Guardian, porque a Premier League lhe avisou que acabaria considerando o Fundo de Investimento Público como parte do governo saudita, o que ele de fato é.

E os direitos humanos? Pois é. Fontes consultadas pela BBC disseram que as acusações de violação de direitos humanos “não eram relevantes' porque, embora Bin Salman seja o presidente do fundo, ele não estaria envolvido na administração do dia a dia, o que é uma maneira muito cara de pau de fazer vista grossa à origem do dinheiro que começaria a jorrar no Newcastle, como se ele ficasse mais honrado se não fosse o governante da Arábia Saudita na fila no banco para pagar a conta de luz de St. James Park.

E torna a história muito interessante porque o governo saudita seria próximo o suficiente do consórcio para que a questão dos direitos de transmissão fosse um entrave, mas não próximo o suficiente para que a dos direitos humanos fosse “relevante”.

A Anistia Internacional afirmou que o fracasso da proposta da Arábia Saudita será visto por defensores dos direitos humanos no país como um “sinal de que seu sofrimento não foi completamente ignorado'.

“Vários ativistas sauditas pacíficos de direitos humanos estão presos e, claro, o jornalista saudita foi grotescamente assassinado por agentes do Estado saudita menos de dois anos atrás', disse Peter Frankental, da filial britânica da Anistia Internacional.

“No futuro, precisa haver uma mudança de regra para garantir que o teste para donos e diretores da Premier League forneça um escrutínio adequado do histórico de direitos humanos daqueles que tentam entrar no futebol inglês, principalmente quando os compradores são governos e representantes de governos', completou.

A novela chegou ao fim. Com todas as ponderações necessárias, sem o clímax que a maioria da torcida do Newcastle esperava. Surgiram novos rumores de que a desistência da Arábia Saudita poderia ressuscitar o interesse de um empresário americano, mas, sinceramente, o torcedor do clube não aguenta mais criar expectativa apenas para terminar decepcionado.

.



PUBLICIDADE
PUBLICIDADE