Uma das histórias curiosas de 2020/21 será Mircea Lucescu, "criador" do Shakhtar, à frente do rival Dynamo Kiev

| TRIVELA/LEANDRO STEIN


Mircea Lucescu representa uma revolução ao Shakhtar Donetsk. O treinador romeno foi o homem que transformou o clube em uma potência no Campeonato Ucraniano. Antes da chegada do comandante, os Mineiros tinham apenas um título da liga nacional. Depois que ele assumiu a equipe, foram oito taças na competição em 12 anos, além do troféu da Copa da Uefa em 2009 e de ótimas campanhas na Champions League. Não se fala da grandeza do Shakhtar sem mencionar Lucescu. E o mentor agora coloca em xeque sua veneração ao mudar de lado: nesta quinta-feira, o arquirrival Dynamo Kiev anunciou o veterano como seu novo técnico, com contrato pelos próximos dois anos.

Atacante importante na seleção romena durante os anos 1970, Lucescu tinha vários trabalhos relevantes antes de chegar na Ucrânia. Foi técnico da seleção de seu país por cinco anos; rompeu a hegemonia do Steaua no Campeonato Romeno ao levar a taça com o Dinamo Bucareste e também seria campeão depois com o Rapid; levou o Brescia à Serie A e teria uma breve passagem pela Internazionale; dirigiu um supertime do Galatasaray e se consagrou pelo Besiktas. Por tudo isso, o Shakhtar contratou o romeno para encabeçar a ascensão do clube a partir de 2004. Deu muito certo.

Lucescu montou as bases de seu trabalho aproveitando talentos locais na defesa e pinçando jogadores brasileiros ao ataque – o fato de ter feito um estágio no Brasil e falar português facilitava. Assim, desbancou o monopólio do Dynamo Kiev no país e criou seu próprio período hegemônico com o Shakhtar. Chegaria a ser pentacampeão nacional de maneira consecutiva e apenas no final de sua passagem de 12 anos é que permitiria que o time da capital levasse um bicampeonato. Mas o jogo de forças já havia mudado na Ucrânia e o próprio clube de Donetsk passou a ser muito mais respeitado além das fronteiras, com presença frequente na fase de grupos da Champions e o referido título da Copa da Uefa em 2009.

A saída de Lucescu do Shakhtar se deu por um desgaste natural, após dois títulos do Dynamo e também as dificuldades que impactaram o clube por causa da guerra civil no país. Mas não que a imagem do treinador em Donetsk estivesse manchada. Pelo contrário, o comandante saiu com todas as honras por aquilo que construiu em 12 anos, deixando uma excelente base aos seus sucessores – que, afinal, recuperaram o topo da liga quando a situação ao redor amainou. Depois disso, o romeno teve um período de um ano à frente do Zenit em que não cumpriu os objetivos e também ficou pouco menos de dois anos na seleção da Turquia, demitido em fevereiro de 2019 pelo aproveitamento ruim.

Aos 74 anos, Lucescu poderia desfrutar de uma aposentadoria tranquila. Já teria até mesmo o sucessor para manter o sobrenome em alta, depois que o filho Razvan Lucescu passou a enfileirar seus feitos – como encerrar o jejum de mais de três décadas com o PAOK no Campeonato Grego ou levar o Al-Hilal ao título da Champions Asiática. Mircea, porém, não quis se acomodar. E com o Shakhtar encadeando agora de um tetracampeonato, ele se torna o antídoto do Dynamo para impedir o penta dos rivais.

Não será uma tarefa simples. O Dynamo fez uma temporada ruim no Campeonato Ucraniano. Terminou 23 pontos atrás do Shakhtar e correu sérios riscos de ficar fora das preliminares da Champions, dando um bocado de sorte na rodada final. O clube de Donetsk possui um elenco completo e ainda apostou em diversas promessas brasileiras nos últimos tempos, que começam a desabrochar uma nova safra. O time de Kiev até possui um talento ou outro, sobretudo do futebol local, mas precisará de muito trabalho para tirar a diferença.

Resta saber se, pela segunda vez, Lucescu transformará em ouro tudo o que tocar na Ucrânia. Há um efeito positivo no Dynamo e também um baque no Shakhtar. Mas não existe exatamente um cenário favorável para repetir o que aconteceu em Donetsk ao longo daqueles 12 anos. Por mais que o romeno possa se tornar um treinador ainda mais dominante na história do futebol ucraniano, há uma probabilidade maior de que ele só irrite as duas torcidas – e os ultras em Kiev já demonstraram sua insatisfação logo nas primeiras horas após o anúncio, por causa de declarações antigas do técnico quando estava à frente dos rivais. Independentemente do que ocorrer, não é isso que derrubará a imagem do império construído por Lucescu à frente dos Mineiros. Mas já fica um asterisco.



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