Mario Gómez se despede do futebol como um digno representante do ofício de centroavante

| TRIVELA/LEANDRO STEIN


Mario Gómez faz parte de uma verdadeira escola do futebol: a dos grandes centroavantes alemães. O veterano não era o jogador mais refinado, nem o mais habilidoso, mas sabia tomar conta da grande área e marcar seus gols. Assim, virou uma referência na Bundesliga desde 2005 e imprimiu sua marca em diversos clubes, bem como na seleção. Nos últimos anos, o matador retornou à sua casa e viveu alguns bons momentos com o Stuttgart. Já nesta temporada, tinha como missão recolocar os suábios de volta na primeira divisão. A equipe oscilou e deu um pouco de sorte para confirmar o acesso. A promoção, ao menos, garantiu um adeus feliz a Gómez e permitiu que o atacante se aposentasse com a cabeça erguida, às vésperas de completar 35 anos.

Se o presente do Stuttgart não representa grandes feitos, Mario Gómez é um elo com o passado glorioso dos suábios. O centroavante estourou com o time que conquistou a Bundesliga pela última vez. Era um jovem de 21 anos quando anotou gols fundamentais em 2006/07 e impulsionou os alvirrubros à Salva de Prata, em uma das edições mais equilibradas do Campeonato Alemão. A torcida na Mercedes-Benz Arena viu a ascensão de uma boa equipe, que ainda contava com Cacau, Sami Khedira, Timo Hildebrand e Thomas Hitzlsperger entre seus destaques. Gómez foi absoluto: artilheiro do time com 14 tentos, acabou eleito o melhor jogador da temporada.

Os números de Mario Gómez melhoraram ainda mais nas temporadas seguintes. Seria vice-artilheiro da Bundesliga em 2007/08, com 19 gols, e acabaria em terceiro na lista de goleadores com os 24 tentos de 2008/09. O sucesso o levou à seleção alemã, titular no início da campanha na Euro 2008, mas barrado depois de alguns gols perdidos. Já em 2009, durante a reformulação do Bayern de Munique sob as ordens de Louis van Gaal, chegaria como novo dono do ataque pelo valor recorde de €30 milhões – enquanto Luca Toni saía da Baviera. Foi neste momento que o centroavante atingiu o auge da carreira.

Com a concorrência de Miroslav Klose, Ivica Olic e Thomas Müller, Mario Gómez não deslanchou em sua primeira temporada no Bayern. Contribuiu ao título da Bundesliga com dez gols, mas sem se tornar titular absoluto. Sua evolução seria clara nas duas temporadas seguintes, mesmo com o domínio do Borussia Dortmund no campeonato. Somaria 54 tentos em ambas as campanhas, enfim aclamado como artilheiro pelos 28 gols de 2010/11. Na Champions, foram 12 tentos em 12 partidas até a frustrante final de 2011/12, decisivo inclusive nas semis contra o Real Madrid. E, mesmo preterido por Klose na Mannschaft, voltaria a disputar a Copa de 2010 e a Euro de 2012 – anotando gols importantes contra Portugal e Holanda nesta última.

Mario Gómez começou a perder espaço no Bayern em 2012/13, quando sofreu uma séria lesão no tornozelo durante o início da temporada e Mario Mandzukic assumiu a linha de frente. O alemão reapareceu no time apenas em novembro, a tempo de assinalar 11 gols pela Bundesliga e também de deixar sua marca duas vezes na Champions – uma delas na histórica goleada por 4 a 0 sobre o Barcelona nas semifinais. Ainda que sem o protagonismo de outrora, era parte integrante do esquadrão de Jupp Heynckes que levou a tríplice coroa, com seu melhor guardado à final da Pokal – em sua última partida pelo clube. Foram dois gols no triunfo por 3 a 2 sobre o “seu” Stuttgart na decisão.

A chegada de Pep Guardiola minou o espaço a um centroavante-centroavante como Mario Gómez. Ele aceitou o desafio de se mudar à Itália e foi escrever sua história na Fiorentina. Parecia o começo de um casamento promissor, mas duas lesões sérias no joelho comprometeram totalmente a primeira temporada do alemão na Serie A. Muito pior, custaram sua presença na Copa de 2014. Precisou ver seus companheiros de longe no Brasil, celebrando o tetracampeonato mundial. A volta por cima ainda levaria mais um tempo e, depois de outro ano infrutífero na Viola, resolveu aceitar uma proposta do Besiktas.

O Campeonato Turco significou o renascimento de Mario Gómez. O centroavante voltou a apresentar seu faro de gol, estrelando o time de Senol Günes rumo ao título da Süper Lig. Foram 26 tentos, que marcaram sua recuperação e concederam a chance de disputar a Euro 2016. Titular em parte da campanha, sofreu uma lesão na reta final do torneio e veria do banco a eliminação na semifinal, diante da anfitriã França. Logo depois, retornou à Alemanha, assinando com o Wolfsburg.

Se os Lobos não foram rebaixados em 2016/17, precisam agradecer bastante a Mario Gómez. Os gols do artilheiro evitaram um destino pior ao time, que ainda assim precisou disputar os playoffs contra o rebaixamento. De novo ele seria decisivo, com um dos tentos que valeram a permanência. Atrapalhado pelas lesões, o atacante não fez uma primeira metade de Bundesliga positiva com o Wolfsburg em 2017/18. Para reaparecer na Copa do Mundo, resolveu apelar aos sentimentos. Em janeiro de 2018, assinou com o Stuttgart e se reapresentou à torcida que aprendeu logo cedo a idolatrá-lo.

Num time recém-promovido à primeira divisão, Mario Gómez transformou o ambiente. Afastou os riscos de um novo rebaixamento e fez os suábios beirarem a classificação à Liga Europa. Com oito gols em 16 partidas, voltava a ser considerado à seleção. E, assim, disputou a Copa do Mundo naquele mesmo 2018. A campanha na Rússia seria melancólica, com Joachim Löw confiando no centroavante apenas no segundo tempo das partidas. Apesar disso, seria dele a assistência que iniciaria a virada contra a Suécia. Talvez sua presença de área pudesse ter sido melhor aproveitada pelo Nationalelf na ocasião.

Encerrada sua trajetória de 78 jogos e 31 gols pela Alemanha, Mario Gómez passou a se dedicar somente ao Stuttgart. Mas sofreria com o clube do coração. Com sete gols na Bundesliga, o capitão não evitou que os suábios disputassem os playoffs do rebaixamento em 2018/19. Até marcou na ida contra o Union Berlim na Mercedes-Benz Arena, mas os dois empates favoreceram os berlinenses pelos gols fora de casa e de novo os alvirrubros acabaram rebaixados. Nesta edição da segundona, Gómez frequentou bem mais o banco do Stuttgart. Mas não deixou de ser importante, com sete gols, brilhando inclusive na boa sequência de resultados durante o início do segundo turno.

Na última partida de sua carreira, neste domingo, Mario Gómez marcou o seu 110° gol pelo clube – o 315° como jogador profissional. O Stuttgart perdeu para o Darmstadt por 3 a 1, o que não impediu o acesso, graças ao tropeço do Heidenheim. O dever do ídolo estava cumprido, contribuindo para o retorno de seu time à primeira divisão, antes de se despedir do futebol.

“Estou negociando com Real e Barça, se isso não acontecer…”, brincou aos microfones da Sky Sports, antes de falar sobre os seus sentimentos. “A explosão de emoções foi imensa, mesmo sem torcedores no estádio. Perdemos, isso é estúpido, claro. Mas tive lágrimas em meus olhos em um momento ou outro. Era minha última missão, depois que estragamos tudo na temporada passada, tínhamos que voltar esse ano. Era meu desejo acabar assim”.

“Quando eu era jovem, quis conquistar o mundo e levantar títulos. Por isso saí e decepcionei muitos torcedores. Mas sempre foi meu objetivo como jogador mostrar que ainda existe certo romantismo no futebol. Esse romance dizia para encerrar a carreira aqui, onde tudo começou. Sou muito grato ao Stuttgart. Sempre foi meu maior sonho retribuir, não poderia acabar minha carreira em outro lugar. Também dedico a todos os torcedores, que sempre estiveram ao meu lado durante os últimos dois anos”, complementou.

O futebol deu muito ao garoto nascido em Riedlingen, uma cidadezinha de 10 mil habitantes no sudoeste da Alemanha. Filho de um espanhol torcedor do Real Madrid, cresceu apoiando o Barcelona e admirando Romário, para contrariar a família merengue. Depois, já no início da adolescência, recusou uma proposta do Stuttgart para não atrapalhar os estudos e apenas com 16 anos é que aceitou transferir-se aos suábios. Muito além de seu talento como matador, é admirado por ser um sujeito que valoriza o companheirismo e o respeito nos vestiários, bem como que se dedica ao máximo nos treinamentos. Despede-se da carreira com sua trajetória notável, e com uma personalidade que a engrandece um pouco mais.

Mario Gómez foi um tipo cada vez mais raro no futebol, que não só viveu dos gols, mas que viveu pelos gols. Como bem definiu em 2017, em uma carta ao Players’ Tribune: “Eu passei por muitos clubes e trabalhei com muitos técnicos, vivi meus altos e baixos. Mas uma coisa nunca mudou, e é a sensação de marcar um gol. Não importa onde eu estou jogando ou quão velho eu esteja, esse é o momento pelo qual eu tenho vivido há 20 anos. É o momento pelo qual eu vivo cada semana. Marcar um gol é uma explosão de sentimentos. É imediato – bam! Antes de você chutar a bola, você sente como se tivesse 200 quilos. Então, a bola deixa o seu pé, rompe os ares e balança as redes. E, nesse momento, não tem mais peso algum”.



PUBLICIDADE
PUBLICIDADE