Do Parque dos Poderes à Feira Central, servidora da Agesul projetou grandes marcos da arquitetura de MS

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A trajetória da arquiteta e urbanista Zuleide Simabuco Higa ficará eternizada não somente nas inúmeras obras que projetou ao longo dos seus mais de 40 anos de profissão, mas também no Centro de Múltiplo Uso do Parque dos Poderes – inaugurado no domingo (8) em Campo Grande. O local leva o nome da profissional falecida em setembro do ano passado.

Quem ajuda a contar um pouco da história da renomada arquiteta é irmã dela, a advogada Eliane Simabuco. Filha de descendentes japoneses, Zuleide nasceu em Campo Grande no dia 9 de novembro de 1956, no bairro Amambai (Chacrinha), onde morou a maior parte de sua juventude. “Ela é a oitava filha de nove e ajudou nossos pais na barraca de hortaliças da feira durante sua infância, juntamente com os irmãos e a avó materna', lembra a irmã.

Zuleide estudou toda a vida em escola pública. Indicada pelo irmão que estudava Engenharia Civil na Universidade Mackenzie, trabalhou como desenhista no escritório de arquitetura “Celso e Eudes Costa', em Campo Grande. Lá, descobriu a vocação profissional e decidiu seguir o sonho de se tornar uma arquiteta. Seguindo os passos do irmão, foi para São Paulo realizar um curso preparatório para vestibular com a ajuda financeira dos irmãos mais velhos. Após um ano de dedicação, foi aprovada, em 1977, na FAU Mackenzie, onde conseguiu uma bolsa de estudos em forma de crédito educativo. “Enquanto cursava Arquitetura no período noturno, trabalhava pelas manhãs como estagiária em escritórios de arquitetura para seu sustento na cidade de São Paulo', conta a irmã.

Formada, Zuleide retornou a Campo Grande em 1983 e se casou com o grande amor da sua vida, o engenheiro Rene Higa, com quem teve dois filhos e uma filha: Mars, formado em Engenharia da Computação; Marc, em Análise de Sistemas; e Tamilyn, em Engenharia Civil. No mesmo ano, Zuleide iniciou sua carreira em obras públicas na Companhia de Habitação Popular de Mato Grosso do Sul (COHAB), onde foi gerente de projetos por 10 anos. Em 1993, ela ingressou como servidora concursada na Prefeitura de Campo Grande e permaneceu até 2014, contribuindo diretamente com investimentos em infraestrutura urbana de três prefeitos: Juvêncio Cesar da Fonseca, André Puccinelli e Nelson Trad Filho.

Em 2014 foi cedida para a Agesul (Agência Estadual de Gestão de Empreendimentos) e idealizou a Deiurb (Diretoria de Empreendimentos de Infraestrutura Urbana), onde trabalhou até 2022. “Tive a felicidade de conhecer e trabalhar com ela, a primeira diretora do setor e responsável pela sua idealização', diz o atual diretor da Deiurb, o engenheiro Pedro Augusto Brandão. Ele ressalta que, profissionalmente, Zuleide foi uma pessoa extremamente competente, detalhista, dedicada e com grande capacidade de entrega. “Era conhecida e respeitada em todos os setores responsáveis por planejamento e execução de obras públicas no Estado', acrescenta.

Da prefeitura da Capital até o Governo do Estado, muitos espaços públicos foram projetados pela arquiteta, dos quais se destacam o novo Terminal Rodoviário de Campo Grande, a Feira Central de Campo Grande, o Armazém Cultural – Complexo Ferroviário, a Praça Esportiva Indígena de Dourados e a revitalização do Parque dos Poderes, além de projetos de loteamento e habitação popular em 25 municípios, escolas e unidades de saúde.

A filha Tamilyn recorda que a dedicação da mãe à profissão se estendia até mesmo aos finais de semana. “Nunca deixou que algo a impedisse de trabalhar. Nem mesmo a doença. Conquistou tudo na vida com muita garra e perseverança', afirma.

Tamilyn acrescenta que a mãe trabalhou incessantemente e, mesmo assim, conseguiu conciliar a vida profissional e familiar de maneira invejável. “Não há dúvidas de que foi uma excelente profissional, mas também uma excelente esposa, mãe, irmã, companheira e amiga, servindo de inspiração para quem quer que seja, principalmente a mim', diz. Além de trabalhar em diversos locais, Zuleide Higa também dedicou 17 anos de sua vida para formar novos profissionais, no período em que atuou como professora do curso de Arquitetura e Urbanismo da Uniderp (Universidade para o Desenvolvimento e Região do Pantanal).

Homenagem

Considerando toda a trajetória de dedicação da arquiteta, o ex-governador Reinaldo Azambuja decretou em 2022 a denominação do Centro de Múltiplo Uso em homenagem a Zuleide Higa. Para a família, a homenagem representa a gratidão, o carinho e o amor pela pessoa que ela foi, e sobretudo o reconhecimento profissional pelos vários projetos realizados, conforme destaca o esposo Rene Higa.

“Muito mais que uma homenagem, a denominação do prédio materializa o sentimento de orgulho da família, que se fará presente a todos que passam pelo Centro de Múltiplo Uso. Concretizado em uma edificação, esta homenagem, esta denominação, evocam ideias de permanência e de reconhecimento pelos seus trabalhos, fonte de alegria para nós familiares', diz.

Arquiteto de formação, o secretário Hélio Peluffo, da Seilog (Secretaria Estadual de Infraestrutura e Logística), destaca a importância do trabalho de Zuleide para o desenvolvimento de Mato Grosso do Sul. “Estive com a Zuleide em várias oportunidades nas vezes em que fui secretário das prefeituras de Maracaju e Ponta Porã, e também no período em que fui prefeito de Ponta Porã. Zuleide era conhecida por todos os profissionais da área. Meu sonho era trabalhar diretamente com ela. Visionária, Zuleide elaborou projetos que são tocados até hoje, como o novo acesso às Moreninhas, por exemplo. Com toda a experiência que ela tinha, contribuiu para o que o governo fizesse importantes entregas ao longo de muitos anos em todo o Estado. Essa é uma justa homenagem e uma maneira de eternizar o trabalho dessa profissional que foi e é um exemplo para todos', destaca.

Joilson Francelino, especial para a Agesul Foto capa: Arquivo/Agesul