Medicina veterinária brasileira súplica por um olhar mais atento para a saúde mental

Bianca Stevanin Gresele, psicóloga, professora MSc e parceira da MSD Saúde Animal

| ASSESSORIA


Ainda rodeada de tabus, preconceitos e dúvidas, a saúde mental é um tema que precisa ser debatido e tratado com a seriedade que merece e isso inclui pensar sobre esse assunto no contexto do trabalho. Sabe-se que nas profissões de alta assistência, onde empatia, compaixão e cuidado com os outros estão no centro da prática, algumas doenças e casos como burnout, fadiga por compaixão, esgotamento emocional e suicídio podem ainda ser negligenciados e desconhecidos, mas deve ser reconhecida como doença ocupacional e isso quem está falando não sou eu, mas a Organização Mundial da Saúde Animal (OMS) que declarou o tema este ano.

Portanto, isso não deve ser diferente na medicina-veterinária. Aqueles que buscam uma carreira nessa área geralmente o fazem por causa de um desejo empático de cuidar dos animais. Contudo, esses profissionais não possuem em suas formações disciplinas que os ensine a lidar com as demandas emocionais dos tutores e até com as suas próprias, o que podem colocar em risco a sua própria saúde mental e bem-estar.

Diante disso, é importante contextualizar e analisar os fenômenos, dinâmicas e fatores estressores que envolvem essa profissão, e isso não é uma tarefa fácil. Muitas são as dificuldades enfrentadas na rotina do médico-veterinário, e algumas das mais desafiadores são lidar com o processo de luto e a perda do paciente; realização de eutanásia; sobrecarga de trabalho; comunicar más notícias; desvalorização da profissão, e conflitos entre a equipe.

Trata-se de uma prática muito estressante e crítica na qual são observados uma constante sobrecarga de trabalho e acontecimentos como privação de sono, além de exaustão e medo de cometer erros. Somados, esses fatores podem resultar no que chamamos de estresse laboral, podendo prejudicar a saúde física e mental desses profissionais.

Preocupados com essa realidade, alguns estudos realizados nos Estados Unidos em 2017, 2019 e 2020 pela empresa MSD Saúde Animal, em conjunto com a AVMA (Associação Americana de Medicina Veterinária), e Brakke Consulting, ressaltaram as dificuldades vivenciadas pelo médico-veterinário e as altas taxas de doenças mentais desses profissionais (MERCK, 2018; 2020; 2021).

O levantamento ainda mostra que os veterinários estão sob alto risco de estresse ocupacional, esgotamento e bem-estar psicológico precário, e ainda apresentam maiores níveis de burnout do que os médicos da medicina humana. O sofrimento moral e a sensação de esgotamento na prática veterinária estão aumentando constantemente, e podem ser uma fonte de estresse e mal-estar que não é amplamente reconhecido ou compreendido.

Portanto, fica evidente que é imprescindível buscar maneiras de valorizar a qualidade de vida e diminuir o impacto do estresse na rotina do médico-veterinário. Para isso, é importante compreender os desafios e demandas específicas de cada contexto, país e cultura a qual esse profissional está inserido.

E aí que entramos no Brasil. Até o momento não havia sido realizado nenhum estudo no País sobrea prevalência dos problemas de saúde mental e/ou de bem-estar da profissão, e com isso, permaneciam dúvidas sobre o quão sério é o problema nessa área. Em julho, a MSD Saúde Animal lançou a primeira pesquisa no país para entender o cenário de saúde e o estado de bem-estar desses profissionais. O levantamento está sendo feito em parceria com a Associação Nacional de Clínicos Veterinários de Pequenos Animais (Anclivepa), World Small Animal Veterinary Association (WSAVA), Associação Brasileira em Prol da Saúde Mental na Medicina Veterinária (Ekôa Vet) e é, inclusive, orientado por mim.

O interesse acadêmico por estudos sobre a saúde mental na medicina veterinária tem aumentado em alguns países nos últimos anos, mas pouco se vê na prática, e é esse o foco da MSD Saúde Animal. A pesquisa faz parte de um projeto da companhia para melhorar a saúde mental dos veterinários, e seus resultados são o ponto de partida para desenvolver iniciativas que ajudem a solucionar os problemas que foram apresentados.

Embora a preocupação com relação a saúde mental na área veterinária esteja melhorando, ainda existem grandes dificuldades no que se refere às estratégias para auxiliar na mudança dessa realidade na prática. E claro, somado a isso está a autoresponsabilidade desses profissionais de priorizarem uma rotina que envolva práticas de autocuidado, de bem-estar e cuidado com a saúde, incluindo a busca por ajuda profissional especializada e fortalecendo a sua rede de apoio. Junta-se a isso um ambiente protegido, no qual possam expressar seus sentimentos, medos, dúvidas e questionamentos.

É por isso que estamos entusiasmados com esse primeiro estudo brasileiro, que pode ser um grande passo para o mercado, já esses resultados trarão mais atenção para o tema e tornarão as iniciativas planejadas a partir dos dados mais assertivas, ajudando a olhar para esses profissionais que cuidam dos nossos pets da forma que merecem! A medicina veterinária brasileira súplica por um olhar mais atento para a saúde mental e nós faremos isso juntos!



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