La Liga entra com reclamação na Uefa contra PSG e City, mas parece esquecer de olhar o próprio umbigo

Acusação de La Liga é que os dois clubes infringiram o Fair Play Financeiro continuamente, mas parece não se importar com os gastos grandes dos seus próprios clubes

| TRIVELA


Javier Tebas, presidente de La Liga (Gualter Fatia/Getty Images)

La Liga entrou com um protesto na Uefa contra Paris Saint-Germain e Manchester City acusando os dois clubes de “continuamente violarem as regulações do Fair Play Financeiro'. A reclamação contra o City foi feita em abril, enquanto a contra o PSG foi feita nesta semana.

“LA Liga nesta semana entrou com uma reclamação na Uefa contra o PSG, que irá se juntar a outra contra o Manchester City em abril, por entender que esses dois clubes continuamente violaram as atuais regulações do Fair Play Financeiro', diz nota de La Liga.

“La Liga entende que o financiamento irregular desses clubes é realizado seja por meio de injeções diretas de dinheiro ou por meio de patrocínios e outros contratos que não correspondem às condições de mercado ou fazem sentido econômico', continua o texto.

Em outro ponto, La Liga critica o conflito de interesses de Nasser Al-Khelaifi, que além de presidente do PSG também comanda a BeIN Sports, emissora de TV que atua em diversos países europeus e detém os direitos da Champions League.

As suspeitas sobre o PSG e Manchester City não são atuais e de fato há questões que a Uefa pareceu ignorar. Em julho de 2020, uma decisão do TAS mostrou que o City violou o Fair Play Financeiro, mas a infração prescreveu por incompetência da Uefa. A decisão veio em função de um processo aberto pelo Manchester City contra a punição imposta pela Uefa de suspender o clube de competições europeias por essas violações, algo que foi revertido nos tribunais graças à lambança feitas pela Uefa. Assim, a punição foi revertida.

O PSG também escapou de punição semelhante em 2019. O clube contratou, na mesma temporada, 2017/18, Neymar vindo do Barcelona por € 222 milhões e Kylian Mbappé do Monaco, que veio por empréstimo com compra vinculada, caso o clube não fosse rebaixado, totalizando € 180 milhões. Ou seja: foi um parcelamento para pagar Neymar em uma temporada, Mbappé na outra.

Documentos que foram divulgados no chamado Football Leaks mostraram que a Uefa foi, no mínimo, leniente com as infrações dos dois clubes. Tanto que houve uma pressão para que a entidade fizesse alguma coisa, as investigações foram reabertas, mas a lambança foi tanta que não conseguiram punir ninguém e ficou tudo por isso mesmo.

O comportamento da Uefa em relação ao PSG e City é bastante questionável, especialmente se olharmos em outros lugares. Em 2019, a Uefa foi dura, por exemplo, com o Milan, que cometeu violações por gastar acima da sua arrecadação e entrou em acordo com os italianos, que tiveram que ficar um ano sem disputar competições europeias em uma temporada que tinha conquistado vaga na Liga Europa.

Javier Tebas é um crítico contumaz de City e PSG, mas faltou fiscalização dentro da sua própria casa, sendo o Barcelona o caso mais crítico. O clube catalão entrou em uma situação financeira que era de insolvência, basicamente, a ponto do clube ter chegado a uma dívida que € 1,35 bilhão e uma folha salarial que representava 103% das receitas. Só na temporada 2020/21, o clube teve um prejuízo de € 481 milhões.

O próprio presidente do Real Madrid, Florentino Pérez, falou constantemente em 2021 sobre a situação financeira dos clubes, que os levariam à necessidade da Superliga. Nesta semana, o Real Madrid gastou € 80 milhões (que podem chegar a € 100 milhões, com alguns gatilhos) para contratar Aurélien Tchouaméni, do Monaco. O mesmo clube que dizia, em abril de 2021, que a situação seria muito complicada sem a Superliga, com perdas que passavam de € 5 bilhões, somados os clubes, segundo Florentino.

O ponto que Tebas parece ignorar é que sim, há questões que a Uefa foi e é leniente em relação aos clubes comandados por Estados, como é o caso de PSG e Manchester City, mas também é leniente com clubes tradicionais e ricos, como o Barcelona, o Real Madrid ou mesmo a Juventus, que tinha dificuldade em cumprir a regra de não ter mais de 70% das receitas comprometidas com salários. Aliás, esses três clubes sentem dificuldades para cumprir essa regra, que faz parte do Fair Play Financeiro.

A Uefa é leniente em relação ao Fair Play Financeiro e precisa de uma reformulação importante. Recentemente, no dia 7 de abril, Aleksander Ceferin falou sobre as mudanças que a entidade fará no Fair Play Financeiro. É preciso combater a gastança que todos os clubes fazem, inclusive Real Madrid e Barcelona, que por vezes gastam muito não só em valores de transferências, mas também em valores de salário. As folhas salariais desses dois clubes chegaram a estar quase em uma liga separada durante muito anos, comparado até a times ingleses, que recebem vultosas fortunas dos direitos de transmissão.

A liga alemã, DFL, por exemplo, já disse muito claramente que há uma vontade grande dentro da Uefa em suspender as regulações financeiras. Isso não beneficia apenas PSG e City, mas também clubes como os citados Barcelona, Real Madrid e Juventus, que hoje sofrem para se adequar nas regras. A própria La Liga viu isso de perto quando o Barcelona teve que baixar salários e dispensar jogadores para conseguir disputar a liga local. Ora, isso não foi de um dia para outro.

A reclamação de Tebas é oportunista, porque chegou a se falar sobre teto salarial na Europa, por exemplo, e os espanhóis sempre foram contra, justamente porque isso os beneficiava. Durante anos, esses clubes nadaram de braçadas com um poder financeiro muito acima da média com pouca regulação.

A ideia da Uefa para nova medida de regulação financeira é boa, como explicamos nesta matéria de abril. Foi estabelecido um teto para gastos dos clubes com transferências, salários e comissões de agentes. Haverá um período de adaptação, mas, em três anos, esse limite terá que ser de 70% – caindo gradativamente de 90% em 2023/24 e 80% em 2024/25.

O relatório Football League 2022, da Deloitte, que avalia as finanças do clube na temporada 2020/21, mostrou que muitos clubes estariam em situação irregular se as regras já valessem naquela temporada.

O Barcelona, por exemplo, estava com 84% das receitas comprometidas com sua folha salarial. Chelsea, Juventus, Arsenal, Atlético de Madrid e Internazionale também ultrapassaram 70% apenas com vencimentos, com a ponderação de que a pandemia ainda estava bagunçando as finanças de todo mundo. Em um primeiro momento, a rigidez das novas regras dependerá de como elas serão fiscalizadas e punidas.

Ou seja: a questão de controle financeiro é importante, mas City e PSG são só parte do problema. Outros clubes terão problemas para lidar com as regulamentações financeiras. E Tebas não vai entrar com uma representação na Uefa reclamando as frequentes violações do Fiar Play Financeiro cometidas pelo Barcelona, certo?

Essa situação de descontrole financeiro é um dos motivos que faz com que, no Reino Unido, se fala em criar um regulador financeiro para os clubes. Inclusive para evitar casos como o do Derby County, um clube tradicional da Inglaterra que pode acabar sendo rebaixado por falência, simplesmente porque havia pouco controle financeiro da EFL, liga que controla segunda, terceira e quarta divisões, e que viu o Derby primeiro entrar em recuperação judicial e agora estar à beira da falência se não for vendido de modo urgente.

Tudo isso é parte de um problema maior, que é falta de controle financeiro. Quem normalmente é contra esse tipo de coisa não são apenas PSG e City, mas também todos os clubes ricos do continente. A Uefa precisava ter um órgão que cuidasse de regulação financeira e estivesse em contato frequente com governos sobre movimentações suspeitas, até para evitar que o futebol seja usado para cometimento de crimes – como lavagem de dinheiro, por exemplo. Especialmente em um momento que estamos com tendência de donos multi-clubes, em países diferentes.

Sem isso, o que Tebas faz é fazer barulho para defender seus clubes. A irregularidade dos outros sempre parece incomodar mais do que a própria.



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