Carisma por Dourados

| REDAçãO


No final da primavera de 1983, durante “umas e outras” na Samambaia, nosso “point” preferido, o amigo radialista Lourimar Neto, sugeriu que eu escrevesse uma poesia ou poema para que ele declamasse durante um “Varal de Poesias” no Ceud (Centro Universitário de Dourados). Fiquei na dúvida. Minha praia era outra, embora já tivesse escrito algumas rimas, sem pretensões. Mas, topei. Dias depois, em casa, olhei para o barrilzinho de carvalho (whisky). E não deu outra. Acionei a Olivetti Lexicon 80 e mandei ver. Tudo fluiu rapidamente, numa época em que estava lendo Arthur Rimbaud e Aldous Huxley, com Raul Seixas e The Doors na vitrola. E deu no que deu. Carisma.
Lourimar, cargas d’água, desistiu de declamar o poema. Então, o Ilson Venâncio, o Boca, foi em seu lugar. E matou a pau. Boca estava naqueles dias de “underground”.
Posteriormente, o poeta Altair Batista de Oliveira, declamou “Carisma por Dourados”, durante uma das edições do festival Frutos da Terra.
Numa outra edição do “Frutos da Terra”, também idealizada e produzida pelo meu primo Luiz Carlos Pael, o Araticum musicou o “Carisma”, declamado por Boca, com solo de bandolim do saudoso Moacir Costa, da música “Lady Jane”, do Rolling Stones.
Nas festividades do final de 1983, mandei imprimir 100 unidades em papel couche (e também em plástico) da letra do “Carisma” e distribui aos amigos como votos de “Boas Festas de Natal e Ano-Novo”. O saudoso prefeito Luiz Antônio Gonçalves gostou.
O amigo Miguelão pirografou o teor do “Carisma”. O quadro, que ganhei de presente, dele, ficou exposto na Samambaia. Outros amigos queriam comprá-lo de qualquer jeito. O saudoso jornalista Júlio Marques de Almeida, o Julinho, era um deles. “Mas, presente não pode ser vendido”, argumentava. Semanas depois, o quadro caiu e a madeira rachou. No meio.
Coincidentemente ou não, depois disso, nunca mais escrevi poemas. Afinal, a minha praia era outra. Só ficou o “Carisma” como lembrança de uma época vibrante nas mesas e nos cinzeiros das dúvidas e incertezas. Uma coisa era certa: a gente era feliz. E como era!
Carisma por
Dourados
Vander Verão
Dourados, eu te enterro
eu te enferro com o meu
esperma de ferro com o
meu coração esmero
Quero-quero penetrar
no teu feltro cor de trigo
viajar no teu umbigo
até te arrasar
até te sangrar
no cio do sobreamar
Dourados, eu te enterro
eu te enferro com o meu
esperma de ferro com o
meu coração esmero
Quero-quero penetrar
no teu útero de cidade
no gozo de tua idade
te respeitar
te amaldiçoar
até gemer doído
no sangue diluído
Dourados, eu te enterro
eu te enferro com o meu
esperma de ferro com o
meu coração esmero
Dourados, dourado
significado do
bem-amado do
achado-perdido
na Marcelino do
calepino sonhado
no dia glorificado
Dourados, eu te enterro
eu te enferro com o meu
esperma de ferro com
meu coração esmero
Quero-quero lamber
a tua terra com uma
fome de fera
na gruta,
na cratera,
até te saciar
até te matar
no verbo amar
(Publicado na edição do jornal O Progresso de 20 dezembro de 1983)



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