Solo bem conservado significa menos problemas para as cidades

| CLIMA TEMPO


É a partir do solo conservado que se pode garantir o acesso à água potável, à produção de alimentos, à regulação do clima, assim como o equilíbrio dos biomas e sua biodiversidade. Dados da ONU (Organização das Nações Unidas) indicam que o manejo inadequado do soloreduz em até 8%ao ano o Produto Interno Bruto (PIB) nos países em desenvolvimento.

Anualmente, o planeta perde 24 bilhões de toneladas de solo fértil. O uso incorreto do solo, quando prolongado, pode levar à desertificação, ou seja, torná-lo improdutivo. No Brasil, muitas áreas encontram-se degradadas, seja em função do uso inadequado pela agricultura ou pela ocupação urbana, resultando em um solo de menor qualidade, o que amplia a quantidade de sedimentos e poluentes nos corpos hídricos das bacias hidrográficas, criando entraves para o abastecimento de água em nossas cidades.

De acordo com Guilherme Karam, coordenador de Negócios e Biodiversidade da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza, quando se fala em conservação do solo não se deve pensar apenas em áreas com presença de agricultura, de florestas ou de outras áreas naturais. A intervenção é de grande importância também nas grandes cidades.

“Um solo conservado significa menos problemas para as cidades. Em áreas com solo permeável e de boa qualidade, a água fica retida nele e na vegetação e vai sendo disponibilizada gradativamente aos rios, fazendo com que períodos longos de seca sejam sentidos de forma mais branda. Como o solo funciona como uma esponja, retendo a água durante os períodos de chuva, evita também enchentes e alagamentos”, explica Karam.

“O emprego das chamadas Soluções baseadas na Natureza (SbN), ações que utilizam processos e ecossistemas naturais para a geração de benefícios socioeconômicos, são fundamentais para superar desafios que colocam em risco o bem-estar humano”.

No entanto, as mudanças climáticas têm provocado desafios a essa lógica. Quem alerta é o pesquisador da Escola Superior de Agricultura da Universidade de São Paulo (Esalq/USP) e membro da RECN, Ricardo Ribeiro Rodrigues. “Temos testemunhado uma concentração dos eventos climáticos, com chuvas intensas em curtos períodos. Isso cria uma preocupação enorme porque ainda não temos técnicas bem aplicadas de conservação de solo para enfrentar situações desse tipo”, afirma o especialista.

Iniciativas-modelo vêm sendo testadas em alguns locais com a proposta de buscar soluções baseadas na natureza para essa nova dinâmica climática. Uma delas é o Movimento Viva Água, idealizado pela Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza, e que já conta com a participação de diversas instituições, que visa aumentar a segurança hídrica da região metropolitana de Curitiba, por meio da conservação e recuperação de ecossistemas, além da implantação de boas práticas de uso do solo e de agricultura sustentável por produtores rurais da bacia hidrográfica do rio Miringuava, no Paraná.

Iniciado em meados de 2019, o Viva Água irá investir R$ 6 milhões nos primeiros cinco anos do movimento. Ao final de uma década, espera-se que as iniciativas de conservação de ecossistemas e do solo garantam acesso à água em qualidade e quantidade adequada para os moradores e as indústrias abastecidas pela bacia do Miringuava, contribuindo também para oSistema da Abastecimento de Água Integrado de Curitiba e Região Metropolitana.

Ação semelhante também está sendo iniciada no Rio de Janeiro, onde dois projetos multisetoriais apoiados pela Fundação Grupo Boticário vão atuar no aumento da cobertura florestal e na promoção da agricultura sustentável na Bacia Guapi-Macacu, no recôncavo da Baía de Guanabara

O engenheiro agrônomo Carlos Hugo Rocha, membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza (RECN), explica que o solo é a fina camada que reveste o planeta. Originado das rochas, se forma após séculos de chuva, vento e erosão. Seus diferentes tipos resultam da rocha de origem e dos processos de deterioração que elas sofrem.

“Sua composição é 45% minerais, que é a degradação da rocha, 25% água, 25% ar e 5% matéria orgânica, ou seja, o tecido animal e vegetal morto, acumulado durante séculos e que dá vida ao solo”, explica Rocha, que é professor adjunto da Universidade Estadual de Ponta Grossa, do Paraná.

Além de ser importante para a regulação climática, a produção de alimentos, a filtragem de sedimentos e agrotóxicos e o sequestro de carbono (contido naqueles 5% de matéria orgânica), o solo tem função até na produção de fármacos (como nos microrganismos presentes na matéria orgânica, que deram origem à penicilina) e, em especial, na regulação hidrológica.

A Rede de Especialistas em Conservação da Natureza reúne cerca de 80 profissionais de todas as regiões do Brasil e alguns do exterior que trazem ao trabalho que desenvolvem a importância da conservação da natureza e da proteção da biodiversidade. São juristas, urbanistas, biólogos, engenheiros, ambientalistas, cientistas, professores universitários – de referência nacional e internacional – que se voluntariaram para serem porta-vozes da natureza, dando entrevistas, trazendo novas perspectivas, gerando conteúdo e enriquecendo informações de reportagens das mais diversas editorias. Criada em 2014, a Rede é uma iniciativa da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza. Os pronunciamentos e artigos dos membros da Rede refletem exclusivamente a opinião dos respectivos autores.

Fonte: Assessoria de Imprensa Fundação Grupo Boticário -Tamer Comunicação