Efetividade é a marca do douradense Alisson Pira no Ferroviária de Araraquara

| IMPRENSA/TIAGO PAVINI/FERROVIáRIA SA


Alisson se destaca na lateral do Ferrinho. Fotos: Tiago Pavini e Beto Boschiero/Ferroviária SA

A cidade de Dourados, no Mato Grosso do Sul, fica cerca de 850 km distantes de Araraquara. Foi lá na cidade sul-mato-grossense que, no dia 22 de setembro de 1996, nasceu Alisson Fernandes da Silva. Hoje, ele é atleta da Ferroviária, conhecido como Alisson Pira. Mas, para chegar até o interior paulista, a caminhada foi longa.

Com nove anos de idade, Alisson entrou na escolinha do Sete de Setembro na sua cidade natal. “Fiz uma peneira que teve no meu bairro e comecei no futebol”, relembra. O amor pelo esporte bretão teve influência direta de Claudinício Rodrigues da Silva, seu pai. “Ele tinha sido jogador profissional em Mato Grosso do Sul. Jogou no Ubiratan, Operário, todos da cidade de Dourados. Eu cresci escutando histórias dele no futebol”. Claudinício, inclusive, chegou até a semifinal do estadual pelo Operário de Dourados, no ano de 1998. “Falavam muito bem dele, jogava de lateral esquerdo. Diziam que ele era habilidoso, eu queria ser igual a ele”.

Quando Alisson nasceu, seu pai ainda jogava. Mas uma lesão no joelho e as condições financeiras difíceis da família obrigaram Claudinício a aposentar precocemente em 1999, com 29 anos.

Mas a paixão pelo futebol já tinha sido passada de pai para filho. E não foi só a paixão: o apelido também. “O Gauchinho foi meu primeiro técnico no Sete de Setembro, e ele me chamava de Pirinha. Esse apelido veio do meu pai, que era conhecido por todos como Pira. E o Gauchinho era amigo dele. Hoje eu sou o Alisson Pira”, alertando que o apelido não é por causa de uma cidade. “Tem um pessoal que associa meu apelido com a cidade de Piracicaba, mas não tem nada a ver. É por causa do meu pai”.

Alisson teve bastante incentivo do pai para seguir no futebol. “Me dá muitos conselhos, me ajuda a ser quem eu sou, trabalhar cada vez mais para buscar a perfeição. É difícil, mas temos que trabalhar pra isso todo dia. Ele é minha principal referência no futebol, me dedico muito por ele”.

No início de 2011, então com 14 anos, Alisson fez um teste para o Mirassol, no interior de São Paulo. Ele atuava como volante e foi aprovado. “Foi o primeiro teste que eu fiz. Graças a Deus deu tudo certo no primeiro já. E foi também a primeira vez que eu saí de casa, fui morar longe da minha família”.

Com 15 anos, Alisson foi promovido para o time sub-17 do Mirassol. “As coisas aconteceram bem rápido. Já no primeiro ano, estava no sub-17”.

Em 2012, uma parceria que geria o time de base do Mirassol foi desfeita. Nesse contexto, uma parte dos atletas ficou em Mirassol, a outra foi para a cidade de Tanabi. Alisson estava no grupo que foi para Tanabi. “Disputamos o sub-17 daquele ano pelo Tanabi, e chegamos na semifinal da competição. Perdemos para o Marília”.

No ano seguinte, Alisson realizou um teste para integrar a equipe da Ferroviária. Foi aprovado. “Fui para Araraquara. Porém, não fiquei muito tempo, não me adaptei muito bem e acabei retornando para o Tanabi. Mas o pessoal da Ferroviária gostou muito de mim, tivemos uma boa relação. Deixaram aberta a possibilidade de eu retornar para o time”. No mesmo ano, realizou mais um teste, e foi aprovado. Desta vez para o Fragata FC, time de Pelotas, no Rio Grande do Sul. Um dos responsáveis por levar Alisson para o sul do país foi Vinicius Munhoz que, na época, era coordenador técnico do projeto. Mais tarde, os dois se reencontrariam na própria Ferroviária. Mas antes do segundo encontro, naquele momento Alisson não se adaptou novamente. “Fiquei uns dois meses lá em Pelotas, mas era muito frio. Voltei para o Tanabi, já estava chegando no fim do ano. E aí começou minha história com a Ferroviária”.

Ainda em 2013, Alisson voltou para a Ferroviária. Em 2014, assinou contrato oficialmente com o clube.

Já em seu primeiro ano com a camisa da Locomotiva, com 18 anos, disputou a Taça São Paulo de Futebol Júnior. A Ferroviária fez uma boa campanha e chegou até a terceira fase do torneio, quando foi eliminada pelo Fluminense-RJ. Alisson atuou em todas as seis partidas da equipe, sendo titular em cinco delas.

Em 2015, numa parceria da Ferroviária com o Noroeste, Alisson foi emprestado para disputar o Campeonato Paulista Série B, o quarto nível do futebol estadual. E foi nesse momento que ele deixou de atuar como volante. “O técnico conversou comigo e me colocou de lateral direito. Ele falava que eu era rápido, ágil e tinha boa marcação. Por causa dessas características, ele me propôs mudar de posição. Aceitei, decidi mudar e, graças a Deus, me adaptei muito bem. Hoje gosto muito de atuar como lateral direito, foi muito boa pra mim essa alteração”. Mesmo sendo um dos atletas mais jovens do elenco, com 19 anos, Alisson foi titular em 25 das 28 partidas disputadas, marcou quatro gols e ajudou o Noroeste a conquistar o acesso para a Série A3. O atacante Hygor, que também foi emprestado pela Ferroviária na parceria com o Noroeste, foi o artilheiro da competição naquele ano. Era o início de uma grande amizade entre Alisson e Hygor, que dura até hoje em Araraquara.

Após o acesso com o Noroeste, Alisson retornou para a Ferroviária. Em 2016, foi emprestado ao Marília para disputar a Série A2. Retornou novamente para a Ferroviária e disputou o Campeonato Paulista Sub-20 da Primeira divisão. Sob o comando do técnico Leonardo Mendes, Pira exerceu mais uma posição no futebol: passou a atuar como atacante. “Ele me colocou de atacante de beirada, eu nem sabia o que era isso (risos). Mas eu fui e me adaptei bem, foi bem legal. O Léo me ensinou e explicou direitinho, foi um novo aprendizado para mim. Fiquei contente, fiz boas aparições no campeonato como atacante”.

O ano de 2017 foi de extremos para Alisson Pira, então com 20 anos. Logo no início, ele foi emprestado para disputar a Série A3 pela Matonense. Sua mãe, Dona Dulcinéia, teve aneurisma cerebral. A família de Alisson havia permanecido em Dourados  desde que ele saiu de casa. No dia 28 de janeiro, um sábado, seria a estreia da Matonense diante do Taboão da Serra. No dia anterior, Alisson conversou com sua mãe por telefone. “Conversei com ela na sexta-feira, tinha jogo no sábado. Eu sabia que ela tinha adoecido, mas não sabia da gravidade. Ela me disse que estava bem e me fez prometer que eu continuaria no futebol, que eu não iria abandonar porque ela tinha certeza que eu iria disputar grandes campeonatos e ganhar títulos”. No dia seguinte, Pira foi titular e a Matonense venceu o Taboão por 2 a 0, fora de casa.

Depois, Alisson ficou sabendo da gravidade do estado de saúde de sua mãe e quis parar com o futebol. Principalmente por causa da distância. “Para chegar em Dourados eu levava cerca de 15 horas de ônibus, só ida. Minha mãe ficou doente e eu não estava por perto. Nesse momento, estava convicto que iria parar, pelo fato de não estar presente quando ela precisava de mim. Todo esse drama e eu longe da família. Eu não queria passar por isso novamente. Queria encerrar minha carreira e ficar perto da minha família”. Mas a Matonense precisava do atleta, e ele havia prometido para a mãe que não abandonaria o futebol. Lembrou do que ela tinha falado, que ele disputaria grandes campeonatos e ganharia títulos. Alisson não encerrou a carreira. Sua mãe melhorou. “Nós falamos que foi um milagre ela ter ficado boa novamente”.

Quando encerrou a Série A3, retornou para a Ferroviária e disputou a primeira competição com o time profissional da Locomotiva. “O PC de Oliveira disse que me queria no elenco, ele tinha me visto jogar como atacante com o Léo Mendes. Tinha gostado das minhas características. Por mim não teria problema, mas eu falei que estava atuando de lateral direito na Matonense. Aí, nos treinamentos, ele começou a me colocar na lateral e deu tudo certo. Eu fui titular na competição”.

O primeiro gol de Pira no time profissional da Ferroviária foi no dia 27 de setembro de 2017, numa vitória por 3 a 0 contra o Taboão da Serra. Naquele ano, a Locomotiva foi campeã da Copa Paulista, após derrotar a Inter de Limeira nos pênaltis. Alisson não jogou a decisão. “No primeiro jogo da final eu tomei o terceiro cartão amarelo e acabei ficando de fora da segunda partida. Foi um lance bobo, uma dividida”. Mas isso não diminui a importância da conquista para Alisson, primeiro título da carreira do atleta. No final das contas, a mãe dele estava certa. “No começo do ano eu estava pensando em largar o futebol e, no final, estava levantando a taça. Foi aí que eu percebi que o futebol era o meu caminho. Minha mãe me pediu para não abandonar o futebol no começo do ano e no final tudo se consolidou. Foi um sentimento de gratidão e de superação. Ela ficou muito orgulhosa de mim. Eu e minha família Iniciamos o ano todos tristes por causa da saúde de minha mãe mas, no final, estávamos todos sorrindo juntos. Foi muito legal”.

E a profecia da mãe de Alisson se concretizou de vez no início de 2018: Pira disputou o Paulistão. “Foi meu primeiro campeonato de maior expressão, meu primeiro Paulistão. Fui titular com o PC de Oliveira”. Das 12 partidas realizadas pela Locomotiva na elite paulista, Pira foi titular em 11. Depois, na disputa do Troféu do Interior, foi titular em dois dos três jogos disputados.

Após o Paulistão, Alisson foi para o Atlético Goianiense disputar a Série B do Campeonato Brasileiro. “Vivi coisas extraordinárias, fui acolhido muito bem. Infelizmente não conseguimos o acesso”. O Dragão terminou n 6ª colocação, apenas um ponto atrás do rival Goiás, primeiro time da zona de acesso. Na 13ª rodada do Brasileiro, o Atlético derrotou o Brasil de Pelotas por 2 a 1. O primeiro gol da partida foi marcado justamente por Alisson, em uma “bomba” de fora da área que acertou o ângulo.

Após o Brasileiro, Pira retornou para a Ferroviária. E reencontrou um velho conhecido: o técnico Vinicius Munhoz. “Foi bem legal, porque ele acreditou em mim quando eu era mais jovem e me levou para o Fragata FC em 2013. E aí, depois de tanto tempo, estávamos juntos novamente para disputar o estadual mais difícil do país”.

No Paulistão de 2019, Pira estava no elenco que fez história, com o melhor desempenho da Ferroviária na elite após o retorno. A Locomotiva só foi eliminada nas quartas de final pelo Corinthians, e nos pênaltis. “Éramos um grupo muito unido e muito qualificado. Todo mundo se doía pelo outro, todos almejavam o mesmo objetivo”.

Alisson permaneceu na Ferroviária para a disputa do Campeonato Brasileiro Série D, e foi durante a disputa da competição nacional que ele teve a primeira lesão da sua carreira. “Num treinamento, um lance bobo, acabei me machucando. Quebrei o tornozelo. Comecei a pensar de novo se valia a pena continuar no futebol, porque uma lesão é difícil para qualquer jogador. Mas novamente tive o apoio de minha família, dos amigos. E a Ferroviária me deu um suporte muito bom também”. Após cerca de quatro meses se recuperando, Pira foi voltar a correr no gramado em setembro. Acabou não disputando mais nenhum jogo no ano.

Agora em 2020, com 23 anos, Alisson Pira está brigando pela titularidade no time, como lateral direito. Entrou no segundo tempo contra o América Mineiro, pela primeira partida da terceira fase da Copa do Brasil. Sobre a paralisação por causa do novo coronavírus, Alisson é enfático. “A saúde é o mais importante. Todos queremos voltar ao normal, com nossas rotinas, treinos e jogos. Mas só poderemos fazer isso quando os órgãos responsáveis pela saúde disserem que podemos. Saúde em primeiro lugar”.

Uma das características de Alisson é a alegria. Junto com o atacante Hygor (aquele mesmo que conquistou o acesso com o Noroeste), são responsáveis por deixar o vestiário mais “leve”. “Somos duas pessoas engraçadas. Eu acho que quando estamos sorrindo nos sentimos melhor. Já sofremos muito, viemos de uma classe humilde. Não adianta ficar triste. O caminho é sermos felizes, brincar. E eu e o Hygor temos isso. Brincamos com todo mundo, fazemos a felicidade do grupo. Tenho certeza que, quando não brincamos, pessoal sente nossa falta (risos)”.

Quando Alisson sofreu a lesão no tornozelo em 2019, Hygor foi um dos responsáveis pelo apoio. “Temos uma amizade muito grande. Me ajudou muito, virou um irmão pra mim no futebol. Ele conhece minha família, eu conheço a dele. Quando me machuquei ele me ajudou muito. Me levava para a fisioterapia, muitas vezes até fez o curativo da minha perna”, relembra.

No dia 13 de fevereiro de 2020, Hygor fez o primeiro gol da vitória contra o Avaí pela primeira fase da Copa do Brasil. Na comemoração, colocou uma bola debaixo da camiseta. O pai, na verdade, será o Pira. “Quando estávamos no túnel antes da partida falei pra ele que eu estava sentindo que ele iria fazer um gol. Ele disse que não acreditava, mas eu falei que ele iria fazer. E, se fizesse, que pelo menos dedicasse para a minha filha. Poxa vida, eu estava profetizando a vida dele (risos). E ele realmente fez o gol, dedicou para minha filha e ficamos todos felizes”. A filha de Alisson Pira deverá nascer em agosto, fruto do casamento com Narayane.

Em Araraquara praticamente desde 2014, Alisson já se sente em casa no interior paulista. “A Ferroviária é um clube que me abraçou, que acreditou em mim, me deu oportunidade. Sou muito grato. E tenho muitos amigos na cidade, não só no futebol. Então são pessoas que também acreditaram em mim e torcem por mim. Tenho um carinho muito grande pelo clube e pela cidade”.



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