Especialistas alertam para seca histórica no Pantanal

| DOURADOS AGORA


Agência Câmara de Notícias

A seca rigorosa que já provoca quedas históricas nos níveis dos rios do Pantanal traz risco de devastação ainda mais grave no bioma do que a registrada no ano passado.

O alerta partiu de vários especialistas ouvidos pela Comissão Externa da Câmara sobre Queimadas nos Biomas Brasileiros. Alguns órgãos públicos já monitoram a situação por meio de 'salas de crise'.

O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) constata uma 'anomalia de precipitação' na região do Pantanal com déficit de chuva em torno de 40% desde outubro de 2020.

Superintendente de operações e eventos críticos da Agência Nacional de Águas (ANA), Ana Fioreze mostrou os efeitos práticos dessa estiagem nos rios pantaneiros e fez um alerta sobre a crise hídrica na região. Segundo ela, a situação de 2021 é mais crítica do que foi no ano passado e tende a piorar nos próximos meses.

'A gente percebe os reflexos nas vazões: quase todas as estações de monitoramento estão próximas aos níveis mínimos históricos.

Há um potencial risco para captações, principalmente para o abastecimento quando elas estão localizadas muito próximas às margens do rio e são captações fixas. Pode acontecer de haver necessidade de levar essas captações mais para dentro do rio', explicou.

Entre os impactos sociais, já se notam a redução na oferta de peixes e o encalhe das 'chalanas', embarcações típicas do Pantanal.

O coordenador de Ciências da Terra do Inpe, Gilvan de Oliveira, apresentou o histórico das secas cada vez mais intensas e frequentes no bioma.

'Desde o fim da década de 1990, o período seco tem ficado mais seco e também o período chuvoso tem ficado mais seco.

Vejam que, de 2010 em diante, temos um predomínio de chuva abaixo da média. Então, algo realmente está acontecendo no Pantanal e obviamente chama a atenção o período 2020-2021.

Neste ano, não é possível somente fazer orientação ou informativos: têm que ocorrer ações efetivas', disse.

Com a seca também vem o temor de queimadas mais intensas nos próximos meses. Do início do ano até agora, o Inpe registrou 693 focos de fogo ativo na região pantaneira da bacia do rio Paraguai, o mais importante do bioma.

O Instituto de Meio Ambiente do Mato Grosso do Sul (Imasul) também registrou aumento considerável nos focos de queimadas nas últimas duas semanas.

Não há previsão de chuva volumosa e a tendência é de que as precipitações só voltem em meados de outubro.

O gerente de recursos hídricos do Imasul, Leonardo Costa, anunciou que será pedida ao governo federal a inclusão do estado na operação de Garantia da Lei e da Ordem (GLO) que já beneficia o vizinho Mato Grosso mas ainda está restrita à Amazônia Legal.

'Para que as Forças Armadas possam atuar juntamente com o Corpo de Bombeiros do Mato Grosso do Sul nas ações de combate e, em especial, no transporte das tropas e de equipamentos para as áreas mais longínquas e de difícil acesso durante os trabalhos', observou.

Costa informou que o Mato Grosso do Sul investiu R$ 56 milhões em equipamentos e treinamentos de brigadistas desde as queimadas do ano passado. Uma sala de crise será instalada no estado na próxima semana.

A comandante do Batalhão de Emergências Ambientais do Corpo de Bombeiros do Mato Grosso, Juscieli Marques, também relatou uma série de ações de prevenção em curso desde o início do ano, como a instalação de salas de crise descentralizadas e a aplicação de R$ 36 milhões em multas por infrações ambientais.

A coordenadora da Comissão Externa sobre Queimadas nos Biomas Brasileiros, deputada Professora Rosa Neide (PT-MT), voltou a reclamar da ausência reiterada de representantes do Ibama e do ICMBio nas audiências e cobrou ações efetivas também por parte dos Ministérios da Defesa e do Meio Ambiente.

'A gente ainda não chegou aos meses mais propícios a queimadas: agosto e setembro. Então, é o momento em que o Parlamento tem que se dirigir aos órgãos responsáveis para que apoiem os nossos estados e que a gente não tenha a repetição da tragédia do ano anterior', disse.

O deputado Vander Loubet (PT-MS) ressaltou a necessidade de apoio orçamentário às ações de prevenção e controle das queimadas, enquanto o deputado Dr. Leonardo (Solidariedade-MT) citou o posicionamento da Frente Parlamentar da Agropecuária 'contra o desmatamento e os incêndios ilegais'.

O coordenador de pesquisa e desenvolvimento do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), José Morengo, afirmou que a 'anomalia de precipitação' ainda é um fenômeno natural, mas reconheceu que as queimadas são iniciadas pela atividade humana.

'Não podemos dizer que é mudança climática.

É apenas uma amostra do que poderia passar no futuro se o clima continuar aquecendo e se o ser humano não tomar conta dos recursos naturais, não reduzir o desmatamento e não assumir os compromissos do Acordo de Paris e da Cúpula do Clima', disse.

Segundo Morengo, a pandemia de Covid-19, os cortes no orçamento e o controle insuficiente contribuíram para o aumento na frequência e na intensidade das queimadas no Pantanal.

Bióloga da Universidade Federal do Mato Grosso (UFMT) e da Embrapa Pantanal, Débora Calheiros avalia que o rio Paraguai é navegável, mas não comporta uma hidrovia de grande porte.

Ela apresentou o impacto na hidrodinâmica do sul do Pantanal em caso de concretização dos portos e vários pontos de dragagem do chamado 'tramo norte' da hidrovia, entre Cáceres (MT) e Corumbá (MS).

A professora e pesquisadora Solange Castrillon, da Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat), mostrou os reflexos das mudanças climáticas nas nascentes dos rios pantaneiros e na vida dos ribeirinhos.



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