Recuperados da Covid-19 em MS contam desafios que enfrentaram para vencer a doença

Segundo a Secretaria de Estado de Saúde (SES), cerca de 190 mil pessoas que contraíram o coronavírus no estado se recuperaram da doença. Muitas delas, no entanto, encaram sequelas da doença e contam como venceram a Covid-19.

| G1 / JOãO PEDRO GODOY, G1MS


Na semana em que Mato Grosso do Sul completa um ano do primeiro caso de Covid-19 no estado, cerca de 190 mil pessoas infectadas neste período de pandemia podem dizer que venceram a doença. Entre os casos, estão histórias de profissionais de saúde, trabalhadores de serviços essenciais, aposentados. Jovens, adultos e idosos que conseguiram superar os desafios do isolamento e do combate ao novo coronavírus.

O G1 conversou com cinco vitoriosos da Covid, de idades, profissões e características diferentes, que contam o caminho para superar a doença. Em comum, as dificuldades que passaram no período e também o consenso de que a pandemia deve ser respeitada e o novo coronavírus levado a sério por população e autoridades.

CASAL SUPEROU COVID E COMEMORA VIDA COM FILHO

A vida do motorista de aplicativo Jenilson Alexandre dos Santos, de 44 anos e da esposa dele, a cabelereira Adriana Freitas Gama, de 41 anos, foi mudada em julho do ano passado. Prestes a ter o primeiro filho do casal, os dois contraíram a Covid-19 e precisaram de internação. Adriana teve o bebê durante o período em que esteve com a doença, em um parto de emergência para que a criança não fosse contaminada.

A cabeleireira, no entanto, foi quem teve menos complicações da doença. Após o parto, ela ficou 12 dias internada e teve alta até antes de poder ter contato com a criança. Já Jenilson ficou 21 dias internado, sendo 10 dias intubado no CTI e 17 em coma. Ele chegou a ficar com 80% do pulmão comprometido.

Para Adriana, o drama de se recuperar da Covid e ver o marido debilitado com um recém-nascido no colo, foi o mais difícil da situação. "Depois que vi que o bebê e eu ficaríamos bem, tudo que eu pensava era no Jenilson, que ele pudesse se curar para ficarmos juntos em família", conta. O motorista de aplicativo melhorou da doença e foi liberado do hospital após longos 30 dias internado.

Ele conta que, no começo, não tinha forças nos braços e nas pernas e que não conseguia segurar o filho no colo. Com fisioterapia, Jenilson melhorou e poucos meses depois voltou a trabalhar como motorista. Adriana também voltou ao salão de beleza. Para quem trabalha com pessoas todos os dias, é difícil não contar a própria história como forma de conscientização.

"De 10 passageiros, 5 vem sem máscara e se usam, não usam corretamente. Enquanto não sentir na pele, não aprende. Às vezes peço para colocar, tiro até nota baixa. Já contei minha história muitas vezes para tentar conscientizar a população. Tem pessoas que se comovem, que ficam sentidas, mas ainda tem quem não acredite muito. Isso me deixa muito triste", afirma Jenilson.

Por saber da gravidade da doença, o casal se diz preocupado com o aumento de casos de Covid em todo o Brasil e esperam poder tomar a vacina contra a doença em breve. Apesar de algumas sequelas, como a perda de memória recente enfrentada por Adriana e a fadiga mais rápida em ambos, o casal se diz "sortudo" por superar a doença e acompanhar o crescimento do filho.

"Ele está sadio, acima da média de peso e de altura. É o nosso meninão", conta o orgulhoso Jenilson.

ATIVA, MARGARIDA NASCEU DE NOVO

A aposentada Margarida Menezes Coelho, de 73 anos, se considera uma pessoa muito ativa. Apesar de não fazer todos os serviços domésticos de casa devido a idade, ela dirige, é síndica do condomínio em que mora, leva a irmã mais velha ao médico, faz as compras no supermercado e "sempre tem muitas atividades", como ela mesma diz. A Covid-19, no entanto, quase conseguiu vencer a idosa.

Foram 23 dias de internação no hospital, com 12 dias intubada e uma parada cardíaca no período. Apesar das atividades cotidianas, Margarida possuía comorbidades como asma, pressão alta e diabetes, e, portanto, o caso dela era considerado gravíssimo para família e médicos. O pulmão da aposentada ainda ficou com 60% do funcionamento comprometido, mas ela conseguiu resistir e vencer a doença.

"Minha médica disse que nasci de novo e hoje me considero 100%", conta Margarida. A aposentada afirma que sente apenas um pouco de cansaço nas pernas quando passa o dia todo fora, esporadicamente. Ela ainda mantém o hábito de fazer inalação quando acorda, por conta da asma e evita muita fadiga ao realizar alguma atividade física.

"Muitas pessoas não se importam muito com a doença, mas procuro me cuidar bastante e convencer quem eu posso de que a doença não é brincadeira", comenta. Margarida agora aguarda ansiosamente pela vacina da Covid e espera que a imunização chegue em breve para a faixa etária dela. "Brinquei um dia com uma prima e uma sobrinha que dizem que não vão tomar, aí eu coloquei "se sair dez vacinas, eu tomo as dez". Quem já sofreu sabe como a doença é triste", conclui.

PROFISSIONAIS DE SAÚDE SOFRERAM COM A DOENÇA

Segundo a Secretaria de Estado de Saúde (SES), cerca de 7.900 profissionais que trabalham na saúde envolvidos direta ou indiretamente com a Covid-19 contraíram a doença. Destes, 21 acabaram falecendo, de acordo com a plataforma "Mais Saúde" administrada pela SES.

A vitória diante da Covid-19 veio nos casos dos técnicos de enfermagem Rhaphael Fior, de 37 anos, que trabalha na Santa Casa da capital e Paulo Diógenes, de 28, funcionário de um hospital de Chapadão do Sul, a 333 quilômetros de Campo Grande.

Rhaphael foi quem ficou pior com a doença, contraída em agosto do ano passado. Pouco depois de começar a passar mal e precisar de atendimento médico, ele realizou uma tomografia que mostrou que 70% do pulmão dele estava comprometido. Ele ficou intubado por 13 dias e ficou ao todo 22 no hospital. Ele perdeu muita massa magra no período que ficou internado e ainda teve dificuldade em recuperar a força nos membros.

"Fiquei com um pouco de sequela no pé, fazendo fisioterapia até hoje. Mudei o estilo de vida, principalmente a rotina. Saí de empregos que eu trabalhava, para cuidar mais da saúde e a recuperação ser boa. Estou fazendo academia, atividade física. Minha rotina era muito corrida, sem dormir e alimentar direito", conta o técnico em enfermagem.

Rhaphael, que tinha obesidade e pressão alta como comorbidades, precisou até passar por cirurgia para liberar um nervo e voltar o estímulo nos pés. Hoje, ele já se considera praticamente 100% recuperado, mas ainda encontra dificuldades. "Não adianta nada a gente vencer o Covid e na hora da reabilitação não se dedicar. Antes da Covid, era vida normal, mas agora a atenção é redobrada", comenta.

O também técnico em enfermagem Paulo Diógenes, então com 27 anos, contraiu a doença em Chapadão do Sul, em abril do ano passado, logo no início da pandemia. Mesmo sem comorbidades, o funcionário de um hospital particular teve dor no corpo, febre constante, perda de olfato e paladar, enjoo, mal estar e fraqueza por cerca de duas semanas.

"Fiquei bem assustado, nunca tinha tido esses sintomas, alguns deles parecidos com os da dengue. Quando veio o resultado positivo, assustei. Fiquei 18 dias em isolamento. Foi um período difícil, sem poder ficar perto dos meus filhos e da minha família. Antes de acabar meu isolamento, minha esposa descobriu que estava grávida, então tudo que eu queria era ficar bem logo", diz Paulo.

Ele ficou em isolamento em casa durante o período de recuperação e conta que ficou preocupado em não infectar esposa e filha, o que acabou não ocorrendo de fato. Mesmo após se recuperar 100%, ele afirma que tem sequelas, como a perda de memória recente, em situações esporádicas.

Os profissionais de saúde se assustam quando veem o aumento de casos da Covid no estado e se revoltam contra quem ainda menospreza a doença. "As pessoas acham que nunca vai acontecer com elas. Tenho amigos que menosprezaram a doença e que ficaram mal e que só agora acreditam", afirma Rhaphael.

"Eu conto meu caso e falo de quantas pessoas estão morrendo. Muita gente acha que é politicagem, mas não é assim. Acompanhei de perto muitos casos graves e mortes. Então tento passar a todos para fazer isolamento social, uso de máscaras, álcool em gel. Todo cuidado é pouco, pois a doença realmente mata", finaliza Paulo.

"É uma doença agressiva e silenciosa. Não vemos de onde ela vem, mas precisamos tomar todos os cuidados para não continuarmos a transmiti-la", conclui Rhaphael.

O QUE DIZEM OS ESPECIALISTAS

De acordo com a infectologista Mariana Croda, ainda não há uma explicação que seja consenso entre os especialistas sobre os motivos que levam as pessoas a terem formas mais graves da Covid-19. "O que nós sabemos é que a doença tem um espectro muito variado, uma gama de sintomatologia. Logicamente os estudos mostram que idosos e pessoas com comorbidades tem risco maior, mas há pessoas jovens sem nenhum desses fatores evoluírem de forma grave", afirma.

Croda ainda conta que os especialistas observaram que existem casos em que muitas pessoas da mesma família tiveram evoluções da doença de forma grave e que a predisposição genética pode estar relacionada. "O que não conseguimos descobrir ainda é qual é a relação, as predisposições raciais, genéticas, que podem levar um desfecho diferente entre as diferentes características das pessoas. Essa é uma lacuna que a gente ainda, na compreensão da história da doença, não conseguiu esclarecer", lamenta a infectologista.

Sobre as diferentes sequelas enfrentadas por muitos dos recuperados da Covid-19, Croda aponta para a falta de um sistema de saúde estruturado para atender os pacientes pós-Covid. "É natural sequela para pacientes que ficam a UTI, e a reabilitação é mandatória. Mas para o paciente que precisa de reabilitação por período prolongado, atendendo diferentes espectros, ainda não há estrutura", afirma.

Croda completa. "Para este paciente que ficou gravemente enfermo, temos que lembrar que o pulmão dele é o órgão mais acometido, então a reabilitação pulmonar é o foco principal. O que penso é que os serviços de saúde, tanto públicos quanto privados, terão que se reestruturar para de alguma forma conseguir atender essa nova demanda que surge com as altas dos pacientes", finaliza.



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