"O mais formidável caso de patrimônio invisível do negro brasileiro": Joel Rufino dos Santos e a história política do futebol

| TRIVELA/LEANDRO STEIN


Joel Rufino dos Santos é um dos mais importantes historiadores brasileiros. Falecido em 2015, aos 73 anos, o carioca deixou um vasto legado à historiografia e à literatura no país. Muitas de suas obras são ficções ou livros infantis. De qualquer maneira, como ativista do movimento negro no Brasil, sua principal contribuição está na maneira como aprofundou os estudos sobre cultura africana e sua herança no país. Coautor de “História Nova no Brasil', na década de 1960, ajudou a dar uma nova leitura sobre a construção da identidade nacional. E sem ignorar o futebol neste processo.

Joel Rufino dos Santos foi um dos primeiros a dar a devida importância ao esporte dentro dos processos políticos e sociais. Não à toa, seu livro “História Política do Futebol Brasileiro', de 1981, é uma referência na área. Nele, reconstrói a trajetória do futebol no país, interligada a processos mais amplos desde o final do Século XIX. Retrata as quebras e transformações da modalidade, que acompanhavam a sociedade, e reconta a história dos grandes ídolos nacionais – muitos deles enfrentando o racismo e o preconceito, incluindo Friedenreich, Fausto, Leônidas, Zizinho, Pelé, Garrincha e ainda outros.

Mais do que um estudioso do futebol, Joel Rufino dos Santos era um apaixonado pela bola. Cresceu sonhando em ser jogador e este virou seu ganha-pão num momento difícil de sua vida. Perseguido político pela ditadura militar, o historiador exilou-se na Bolívia e ganhou uma chance de treinar com o Bolívar por intermédio do técnico Vinícius Ruas. Talentoso também com os pés, Rufino recebia um salário e vivia no hotel com o time. Disputou alguns jogos com os celestes, inclusive enfrentando o Botafogo em amistoso. Aos 23 anos, ajudava a organizar o meio-campo boliviano, mas logo deixou o clube ao exilar-se ao Chile. Quando voltou ao Brasil, foi preso e torturado, antes de se reintegrar à vida acadêmica através da Lei de Anistia em 1979.

Neste 20 de novembro, dia de consciência, resgatamos algumas ideias de Joel Rufino dos Santos sobre o futebol como patrimônio do negro brasileiro. Logo abaixo, destacamos um trecho do texto ‘Culturas Negras, civilização brasileira’, publicado em Setembro de 2005 na Revista Palmares. O historiador foi presidente da Fundação Palmares, do Ministério da Cultura. Além disso, reproduzimos algumas páginas de “História Política do Futebol Brasileiro”, sobre os primórdios do esporte no país e sua abertura às camadas populares.

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O mais formidável caso de patrimônio invisível do negro brasileiro se deu no esporte nacional. O foot-ball, trazido por ingleses ao terminar o século passado, junto com o squash e o cricket, foi durante anos o que é o tênis hoje. Importava-se num pacote a bola, os uniformes e o handbook ensinando a jogar. Terminados os matches ia o team vencedor, já enxertado com burguesinhos daqui, festejar nas confeitarias: “When more we drink togheter, more friends we will be!'

Após a Grande Guerra – que tanta coisa mudou no Brasil – é que o foot-ball se nacionalizou, embora ainda em 1940 um marmanjo ao derrubar outro arranhasse a garganta num “Sorry'! Em 1920, quando Lima Barreto quis fundar a Liga Nacional contra o Futebol, o esporte já era brasileiro, mas permanecia branco. Era jogado por negrinhos do Maranhão ao Rio Grande do Sul, em fields sem grama e bolas esbeiçadas, mas os grandes times – o Botafogo, o Corinthians, o Grêmio, o Náutico… – só admitiam mulatos de gorra e maquiados. A um certo Carlos Alberto, por exemplo, deve o Fluminense seu apelido de “pó-de-arroz'.

Nessa fase, nosso futebol não passa de imitação do inglês ou do platino. Jogávamos contra eles “para aprender' e se nos goleavam sentíamos o orgulho do sparring. Com a Revolução de Trinta, porém, veio a profissionalização do futebol – e, aliás, também a do samba, os jovens burgueses se afastaram e os negros invadiram as grandes equipes.

Com Fausto, “A Maravilha Negra', Leônidas, “O Diamante Negro' e o veterano mulato Friendenreich, “El Tigre', os negros inventaram a “maneira' brasileira de jogar futebol: escuro ou claro de pele, verdadeiro craque passa a ser o que joga “daquela maneira'. O que vem em seguida é conhecido, cada geração será liderada por um grande jogador afrobrasileiro: Fried gera Fausto que gera Leônidas que gera Zizinho que gera Pelé… O Brasil se torna conhecido como o “país do futebol' e tem no mundo a cara de um negrinho de Três Corações.

O Barão do Rio Branco, que zelou pela nossa imagem de país branco, sofreria. Se amasse o futebol, ao menos poderia comemorar: já não somos sparring da Argentina.

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